Quando a terapia custa menos que um café... quem paga a diferença?
- Juliana Pigolli
- 28 de jul.
- 3 min de leitura

"Quando a esmola é demais, o santo desconfia"
A gente aprende, como uma experiência coletiva, a desconfiar da qualidade de um produto barato demais, da eficácia de um mecânico que faz um orçamento muito abaixo do mercado, e até mesmo a questionar a capacidade de um médico que atende numa consulta de 10 minutos porque precisa dar conta de dezenas de pessoas por hora.
Já no assunto terapia, muitas vezes acreditamos que um preço muito baixo é uma vitória para todos. Mas quando o cuidado vira um produto de alto volume e baixa remuneração, o impacto não se limita ao profissional. Ela também é paga por quem mais precisa de cuidado.
É nessa promessa de "terapia democrática acessível" ou terapia barata, que mora uma discussão importante. Nos últimos anos, multiplicaram-se plataformas que anunciam sessões por valores muito abaixo dos praticados na clínica particular. A proposta de ampliar o acesso à saúde mental é legítima e necessária. O contra-argumento surge quando essa acessibilidade depende de um modelo de remuneração que só se sustenta à custa de agendas superlotadas, baixa remuneração e jornadas exaustivas para os profissionais.
O problema não está no valor que o paciente paga, mas em como esse valor é viabilizado.
Em muitos casos, a conta só fecha quando o psicólogo se rende ao modelo e precisa atender um volume muito maior de pacientes para conseguir viver da sua profissão. E isso tem consequências que quase nunca aparecem na propaganda das tais “plataformas de saúde”. Vamos discorrer sobre algumas delas:
Sobrecarga cognitiva do terapeuta: Quando um profissional precisa fazer muitas sessões seguidas para ganhar razoavelmente bem, a qualidade das decisões clínicas tende a decair.
Menos tempo para estudar cada caso: Pouca gente imagina que um psicólogo estuda e se aprofunda nos temas de cada paciente. Tudo isso é trabalho e consome tempo. Se a sessão rende R$30, não existe espaço financeiro nem de tempo para isso.
Supervisão deixa de acontecer: Muitos casos precisam de “supervisão” para a correta tomada de decisão e para que as questões pessoais do profissional não se “enrosquem” aos casos. Uma boa supervisão custa facilmente:R$ 200 ou até R$ 400 por encontro. Pular essa etapa por conta da falta de verba diminui uma importante camada de segurança clínica.
Educação (des) continuada: Psicólogos e outros profissionais da saúde reinvestem muito de seus ganhos em conhecimento e atualização. Cursos, Congressos, Especializações, Livros, Testes psicológicos. Tudo custa. A dificuldade de reinvestir na própria formação também é uma perda para o paciente.
Fadiga emocional: Depois de interagir com muitas pessoas seguidamente durante o dia, como está sua bateria social? E a disponibilidade emocional? O sorrisão no rosto continua lá? O profissional continua presente. Mas...não inteiro. A empatia exige energia; criatividade terapêutica exige energia. Quando essa energia acaba, a sessão pode se tornar apenas uma conversa sem objetivos e profundidade.
Discussões em fóruns profissionais e seminários da prática clínica têm acompanhado diversos relatos de psicólogos que descrevem que, para tornar o modelo minimamente sustentável, acabam reduzindo o tempo das sessões pra fazer o modelo de alto volume ser sustentável. Reportagens e relatos de comunidades também registraram profissionais admitindo encurtar sessões para comportar uma agenda excessivamente cheia a fim de compensar a baixa remuneração.
É claro que existem excelentes profissionais trabalhando em plataformas, assim como existem profissionais ruins cobrando caro por sessão. O preço, sozinho, não determina qualidade.
O problema é quando o modelo de remuneração praticamente obriga o profissional a trabalhar além do limite para conseguir viver.
Perdemos todos com a uberização da saúde mental
Quando o trabalho do psicólogo é sistematicamente desvalorizado, diminuem os recursos (tempo, energia, dinheiro e motivação) que podem ser reinvestidos no cuidado. Mas quem está do outro lado também paga essa conta. Uma pessoa em sofrimento precisa de um profissional que tenha condições de escutá-la com profundidade, formular hipóteses clínicas, identificar riscos, construir um plano terapêutico consistente e acompanhar sua evolução. Quando as condições de trabalho impedem esse cuidado, não é apenas o psicólogo que perde qualidade de vida. O paciente também corre o risco de receber uma intervenção menos qualificada, menos individualizada e, muitas vezes, menos eficaz.
Democratizar o acesso à saúde mental é primordial. Mas acesso sem qualidade não é cuidado.
O desafio é tornar a terapia acessível sem transformar o cuidado em uma linha de produção precária.
📚 Leia mais: Plataformas ‘uberizam’ trabalho de psicólogos



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